segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

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Não sou muito dado a estas coisas dos prémios, mas agora que o disco de Robert Plant e Alyson Krauss arrasou nos Grammy aproveito para recordar uma canção de Raising Sand que publiquei no blogue em 28 de Outubro de 2007. Raising Sand é uma daquelas pérolas improváveis que acontecem uma vez na vida. Enjoy...


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[O jornalismo que temos - exemplos de hoje]


Página 15 do 24 Horas, letras garrafais: Professor matou irmãos à facada
Página 15 do 24 Horas, letras pequeninas: Duplo homicídio em padaria começa a ser julgado amanhã

Página 12 do Correio da Manhã, letras garrafais: Funcionário desvia 98 mil euros da câmara
Página 12 do Correio da Manhã, letras pequeninas: os factos ocorreram entre 1998 e 2002 e o julgamento está (ou estará, o jornal não esclarece) a decorrer

Página 13 do Jornal de Notícias, letras garrafais: Matou amigo de 15 anos ao exibir-se com a arma
Página 13 do Jornal de Notícias, letras pequeninas: Jovem começa a ser julgado quinta-feira por homicídio ocorrido em 2004

Apenas três exemplos de jornais de hoje. Quem se ficar pelos títulos fica com a ideia de que estamos num país a saque. Quem tiver tempo para ler os textos percebe que se trata de mera estratégia comercial, disfarçada de notícia, para vender papel.
Nos mesmos jornais em que alguns eventos, do Governo, por exemplo, não são noticiados sob a alegação de que são re-apresentações, ou coisas do estilo. Nos mesmos jornais em que os lançamentos de obras e inaugurações são tratados editorialmente como propaganda, só porque quem os faz "volta ao local do crime".

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De novo o jornalismo (uma falsa polémica, 1)

A Helena Garrido (boa amiga e camarada de uma aventura de boa e má memória...) julga que tem pontos de vista diferentes dos meus sobre o estado do jornalismo.
Por isso, em resposta ao que escrevi aqui, aqui, aqui e aqui, respondeu aqui, aqui, aqui e aqui.
Como à frente se verá, não tenho muito a comentar ao que HG escreve. Insisto, as divergências são mais aparentes que reais.
Dito isto, dois pontos prévios:
- eu e a HG partilhámos durante muitos anos a mesma profissão, mas hoje estamos em lados opostos (antagónicos) da barricada. Não vale a pena fingir o contrário.
- tudo o que escrevi baseia-se (como diz o outro...) em casos reais e poderia dar mais do que um exemplo para cada afirmação que fiz. Não o vou fazer, por motivos de ordem ética. Muitos dos exemplos seriam retirados da minha experiência profissional recente e parece-me completamente descabido, nada ético e desleal utilizá-los num debate público.

Mas é por um exemplo real que quero começar. Precisamente por aquele que HG começa por apontar: "Há no caso Freeport informação nova que foi descoberta por jornalistas. Exemplo: José Sócrates estava no grupo de suspeitos".

Excelente exemplo, pela negativa. A história de José Sócrates como suspeito tem barbas. Remonta à campanha eleitoral de 2005, com base numa carta anónima e numa falsa investigação da PJ; deu origem a um processo judicial; e, na prática, é uma das maiores vergonhas do jornalismo português das últimas décadas (a conspiração que deu origem ao caso teve a participação de jornalistas e a publicação de tal inventona em plena campanha eleitoral é apenas uma das milhares de páginas negras de um semanário felizmente já extinto - vidé resumo da história aqui).
Foi com base nessa história que a justiça portuguesa enviou para Londres, nessa altura, uma carta rogatória em que José Sócrates era apontado como suspeito, e foi com base nessa carta rogatória que a justiça inglesa respondeu agora, anos depois, com outra carta rogatória vastamente difundida pelos media, na qual reproduz a informação que a justiça portuguesa entretanto deixou cair.
Isto mesmo, incluindo as razões pelas quais Sócrates deixou de ser suspeito, já foi explicado vezes sem conta pela procuradora que actualmente tem o caso em mãos. No entanto, os jornais (com raras excepções...) preferem criticar a procuradora, antes sequer de ouvirem o que ela diz.
Jornalismo isto?

[continua]

domingo, 8 de fevereiro de 2009

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«When we were doing all that comedy we thought, 'The world is so stupid and so mad that if we make fun of it, it'll improve.' It didn't. It never, ever does»

John Cleese, 2001

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E tu, do que estás à espera para assinar a petição?

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Títulos do caraças:

BE quer derrotar a maioria absoluta do PS

sábado, 7 de fevereiro de 2009

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http://aterceiranoite.wordpress.com/2009/02/06/o-socialismo-cientifico-tem-visoes/

http://bichos-carpinteiros.blogspot.com/2009/02/novas-do-bloco.html

http://causa-nossa.blogspot.com/2009/02/titulos-alternativos.html

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das pequenas grandes fraquezas que posso confessar em público, a de me emocionar com os la-la-la, as canções de título what love can do, refrões como i'm love with the queen of the supermarket, baladas que são sempre iguais, enfim, a de me emocionar com cada novo disco de bruce springsteen. é superior a mim. e hoje percebi que o gajo faz 60 em setembro, o que quer dizer que eu próprio já não andarei longe.

PS: Working On A Dream é o melhor disco do boss em muitos anos. Um vintage retro. Não compreendo, por isso, a avareza de estrelas e outras pontuações que por aí vejo. Diz que está cansado... cansados parecem-me esses que o ouvem.

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comprar lingerie, eu?

















eu, com a lingerie, sou como algumas mulheres com as montras: passo, vejo, passo, volto a passar, mas nunca entro
chegados aqui, à esquina do trocadilho, o melhor é passar a palavra

nada disso nos serve se não nos oferecerem, nas horas imprevistas em dias de coisa nenhuma, a nossa sobremesa favorita, um livro, ou uma bagatela pirosa com corações. Se não nos telefonam a despropósito só para saber o que comprámos no supermercado e se nos apetece um beijo. O que gostamos mesmo, e nos dá vontade de lingerie, é de saber que pensam em nós, a propósito de nada ou de qualquer coisa, um monte de vezes ao dia.

[um blogue com umas séries bem interessantes]

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O debate (e 2)

É neste contexto que não entendo o "debate" no interior do PS.
Vejamos.
O PS está hoje no poder, com maioria absoluta, pela primeira vez desde a fundação da democracia.
A eleição do actual líder foi uma das mais clarificadoras da história do partido - um certo esquerdismo alérgico ao poder versus o pragmatismo de raiz soarista (o homem que meteu o socialismo na gaveta, quando foi preciso). A discussão foi acesa, mas a vitória foi clara.
Quatro anos passados sobre a obtenção da primeira maioria absoluta, o PS lidera (nunca deixou de liderar) todas as sondagens, sendo que uma análise fria e distanciada permite perceber que a repetição desse feito está perfeitamente ao alcance.
Foram quatro anos em que o único partido capaz de disputar o governo com o PS já teve de mudar de líder três (!) vezes.
E isto acontece mesmo depois de o governo saído dessas eleições ter afrontado vários interesses instalados da sociedade portuguesa e ter posto em marcha reformas, cujos resultados só se sentirão daqui a anos, mas cujos custos políticos são pagos à cabeça.
E isto acontece após quatro anos de governo em que, apesar do pragmatismo, são evidentes as marcas genéticas do partido nas políticas e nos resultados.
E isto acontece mesmo num cenário de profundas alterações do contexto (económico, por exemplo) e de clara e generalizada hostilidade dos media.
Nestas circunstâncias, o que querem mesmo debater?

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O debate (1)

Um das discussões mais estéreis da política portuguesa é a que envolve a falta de debate interno nos partidos.
Acontece sempre que um atinge a maioria absoluta (Cavaco secou o PSD, Sócrates secou o PS...). Mas no PS nem é necessária maioria absoluta. Veja-se a balbúrdia no grupo parlamentar no tempo de Guterres.
Ora trata-se de uma discussão completamente sem sentido.
Os partidos já não são (tê-lo-ão sido em tempos remotos...) os centros privilegiados de debate. Os partidos são simplesmente máquina de obtenção de poder (interno e externo). E só marginalmente o poder se alcança através das ideias. Vivemos num mundo em que a aceleração e imprevisibilidade é tal que não faz qualquer sentido escolher um partido pelas suas ideias, as suas soluções, para o mundo e a vidinha.
Hoje, votamos mais em pessoas do que em ideias. E o voto é cada vez mais circunstancial e determinado por factores subjectivos (imagem, comunicação, imagem, comunicação...) do que objectivos.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

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Abomino a grande mentira. A mentira que prejudica. A mentira criada para escapar à censura de terceiros. A mentira como modo de vida. No fundo, isso - a mentira como modo de vida.
Mas gosto de brincar às pequenas mentiras. As que não prejudicam ninguém. A coisa puramente lúdica.
Às vezes tenho alguma dificuldade em que me percebam nisto. E eu próprio tenho alguma dificuldade em traçar linhas divisórias. Mas a vida é isso mesmo. O risco. E a dificuldade em o situar.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

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Há seis meses, no Alentejo profundo, uma estrada meio rural rasgou-me os dois pneus do lado direito. Esta semana, numa não menos profunda cratera com que a Câmara de Lisboa agradece os impostos que lhe pagamos, estoiraram os dois pneus do lado esquerdo. Metaforicamente, em seis meses, fiquei apeado, sem fôlego.
É nestas alturas que tenho pena de não ser místico ou simplesmente religioso - alguma razão, ou aviso divino, haveria de me inquietar ou sossegar.
Assim, sem misticismo, limitei-me a desembolsar quase 300 euros de cada vez. Tudo muito terra-a-terra, sem grande dignidade ou elevação.

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Artigos que todos os homens (ou quase) deveriam ler.






















The Secret World of Lingerie Explained

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

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Sonho erótico levemente pimba

Estava na tua cama com ela.

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Gostava de ter escrito isto:

«Quando a oposição é frágil - como é actualmente no nosso país - os media tendem a assumir o papel da oposição. É uma reacção natural, em todo o mundo e em todas as circunstâncias»

«Sabemos que [o caso Freeport] foi destilado gota a gota por alguma comunicação social, muito preocupada com as vendas e as audiências»

«Isto é pura e simplesmente o resultado de uma assunção pelos media de uma responsabilidade de oposição»

«O nosso sistema judicial é muito tolerante para com os media, temos de chegar a um momento em que os media respondam perante o país»

«Deus nos livre! Um primeiro-ministro demitir-se por factos falsos e artificialmente criados. Era o que faltava».

Correia de Campos, 4 Fev 09

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

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Don't Let It Bring You Down

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Gostava de ter escrito isto:

Manual de instruções para campanhas negras.

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A Rolling Stone, sendo um dos rostos do liberalismo americano, é simultaneamente uma das revistas mais conservadoras do mundo.
Politicamente, aquilo a que na Europa chamamos de "esquerda" pode contar sempre com a RS. Nas últimas eleições, fizeram duas capas quase seguidas com Obama...
Mas a abordagem musical - e a RS é essencialmente uma revista de música - é do mais conservador que imaginar se possa. Basta espreitar as listas de melhores discos, cantores, etc, etc que de vez em quando fazem para o constatar. Mas nisso, nessa perenidade dos valores essenciais do pop-rock, é insubstituível.

Isto tudo só para dizer que a capa da última edição é mais um (!) objecto de colecção.


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Viver um dia de cada vez. Aproveitar o momento. Fatal falácia. Somos, essencialmente, passado. Tudo o que acumulamos ou transportamos nos pesa, ou nos torna leves. E somos futuro. Cada gesto, intencional ou não, projecta-nos para um devir, próximo ou longínquo. O momento, o viver um dia de cada vez, é uma impossibilidade. Um consolo.

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O erro só existe quando dele tomamos consciência. Eis um dos problemas com que me tenho confrontado - digo que erraste, mas tu não sabes que erraste, logo não erraste. O diálogo complica-se, então. Daí à impossibilidade é um pequeníssimo passo.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

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A morte do jornalismo (4 e fim)

E estamos condenados a esta miséria?
Sinceramente, acho que sim.
Podemos, no entanto, tentar melhorar algumas coisas. Pequenos passos. Por exemplo, tornar obrigatória a leitura deste livro a todos os que ponham o pé numa redacção. Talvez pouco lhes fique na cabeça, mas não podem dizer que não foram avisados.























Os mais preguiçosos podem ficar pela contracapa, onde se lê:

The elements of journalism are:
* Journalism’s first obligation is to the truth.
* Its first loyalty is to citizens.
* Its essence is a discipline of verification.
* Its practitioners must maintain an independence from those they cover.
* It must serve as an independent monitor of power.
* It must provide a forum for public criticism and compromise.
* It must strive to make the significant interesting and relevant.
* It must keep the news comprehensive and proportional.
* Its practitioners must be allowed to exercise their personal conscience.


Nota: a capa que está ali em cima é da edição americana de 2008, devidamente actualizada. Para os mais preguiçosos e analfabetos, há uma versão portuguesa da edição anterior (procurem-na, não esperem que faça eu tudo...). É melhor que nada!

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Hasta Pública

Entregamos a quem der melhores garantias de boa utilização alguns dossiers encontrados numa garagem da Aroeira. Damos preferência a utilizações em cadeia, por exemplo, a propostas conjuntas entre um jornal e uma televisão. As melhores propostas, além de poderem utilizar os materiais agora à disposição, passam à segunda fase, durante a qual colocaremos à disposição os famosos e exclusivos caixotes do sótão da Aroeira.

1. Caderneta completa dos cromos da primeira série do Espaço 1999, incluindo o famoso e raríssimo cromo 39 (o do Spock com a orelha descaída). Fornecemos em anexo testemunhos de dois amigos de infância dispostos a garantir, mesmo sob ameaça, que o cromo 39 era virtualmente impossível de obter, a não ser recorrendo a métodos pouco ortodoxos. Temos ainda uma carta da Panini a confirmar que, de facto, nem nos seus arquivos existe qualquer exemplar do cromo 39 (Nota: a Panini ainda não existia quando os factos ocorreram, pelo que não se aconselha o recurso a cronologias). Noutro anexo, pedopsiquiatras com provas dadas (vidé Casa Pia) garantem a pés juntos que o "o cromo 39 não é apenas o cromo 39, é uma tendência genética".

2. Fotos de um indivíduo de cabelo ligeiramente grisalho, fatos Armani (provavelmente comprados numa famosa fábrica da Serra de Aire) e pose elegante. Tem sotaque siciliano. Fornecemos em complemento um DVD (sem imagem, mas com bom som), gravado por um vizinho, em que se ouvem claramente as expressões "Colete Encarnado", "pega de caras" e "animal luzidio". Do dossier consta uma ficha de uma força policial inglesa cujos peritos relacionam, sem margem para dúvidas, aquelas expressões com "Alcochete", "ZPE" e "isso vai custar-te um prato de tremoços". Noutro anexo, uma folha de um processo a correr na comarca do Seixal trata o indivíduo como "sósia".

3. Entrevista concedida ao jornal "El Suel", de Bogotá, por um trabalhador de uma firma de sucata de pneus da Margem Sul, actualmente a viver sob identidade falsa na Bolívia, na qual são relatadas movimentações estranhas de carros de alta e baixa cilindrada, em 1993, na A12 (em 1993, ainda não havia A12, pelo que se recomenda a omissão da data, ou da estrada em concreto). Do dossier consta uma troca de mails entre o funcionário da sucata e o seu patrão, em que a certa altura se pode ler "agora, depois do que viste, ou te meto num bidão de cimento ou te mando para Buenos Aires". Fornecemos, a título completamente gratuito, sugestão de uma maquete de uma dupla página de jornal, em que ficam perceptíveis as ligações existentes entre o patrão da sucata, uma secretária do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o Lee Rodrigues (que ainda não tinha entrado nesta história) e várias aves protegidas das Salinas do Samouco. Nota: a dupla página tem obrigatoriamente que ser impressa a cores.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

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Benjamin Biolay et Chiara Mastroiani - Folle de Toi

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A morte do jornalismo (3)

Acresce ao que já se disse o facto de hoje em dia as redacções serem uma espécie de voz do dono.
Trata-se de um facto relativamente recente, pelo menos na forma generalizada em que actualmente se apresenta.
É claro que os media têm patrões e que, por isso, de alguma forma sempre cederam a ser porta-vozes dos interesses de quem paga e manda. Mas isso era, no passado, a excepção. Acontecia uma vez por outra, causava desconforto e, normalmente, não era feito da forma escancarada como acontece hoje.
Os jornalistas, a começar pelos directores, assumem frequentemente as dores e os apetites do patrão.
Por um lado, na luta entre grupos de media, seja através da supervalorização de notícias e personalidades do grupo, seja pela exclusão das dos grupos adversários. Em alguns casos, de forma ligeira, noutros, à bruta. Às vezes, basta a secção de "bocas" para escarnecer o adversário, noutros casos, chega-se à manchete.
Mais recentemente - e precisamente porque se abrira o caminho através da luta inter-grupos - os media alinham com os patrões nos seus negócios e opções políticas ou outras.
Os media passaram a conciliar aquilo que acham ser o jornalismo na sua acepção clássica com uma postura grupal mais ou menos declarada.
E nisto, como no resto, o que custa é abrir a porta. Com ela aberta, é fartar vilanagem.
No caso Freeport isso tornou-se evidente, mesmo para quem ainda tinha algumas dúvidas.

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Dias terríveis. O vento limpa, purifica, leva para longe as poeiras, os rumores, o cheiro da podridão. Mas logo vêm as enxurradas, a chuva copiosa. E fica novamente tudo coberto de camadas de lama.