sábado, 7 de fevereiro de 2009

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O debate (1)

Um das discussões mais estéreis da política portuguesa é a que envolve a falta de debate interno nos partidos.
Acontece sempre que um atinge a maioria absoluta (Cavaco secou o PSD, Sócrates secou o PS...). Mas no PS nem é necessária maioria absoluta. Veja-se a balbúrdia no grupo parlamentar no tempo de Guterres.
Ora trata-se de uma discussão completamente sem sentido.
Os partidos já não são (tê-lo-ão sido em tempos remotos...) os centros privilegiados de debate. Os partidos são simplesmente máquina de obtenção de poder (interno e externo). E só marginalmente o poder se alcança através das ideias. Vivemos num mundo em que a aceleração e imprevisibilidade é tal que não faz qualquer sentido escolher um partido pelas suas ideias, as suas soluções, para o mundo e a vidinha.
Hoje, votamos mais em pessoas do que em ideias. E o voto é cada vez mais circunstancial e determinado por factores subjectivos (imagem, comunicação, imagem, comunicação...) do que objectivos.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

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Abomino a grande mentira. A mentira que prejudica. A mentira criada para escapar à censura de terceiros. A mentira como modo de vida. No fundo, isso - a mentira como modo de vida.
Mas gosto de brincar às pequenas mentiras. As que não prejudicam ninguém. A coisa puramente lúdica.
Às vezes tenho alguma dificuldade em que me percebam nisto. E eu próprio tenho alguma dificuldade em traçar linhas divisórias. Mas a vida é isso mesmo. O risco. E a dificuldade em o situar.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

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Há seis meses, no Alentejo profundo, uma estrada meio rural rasgou-me os dois pneus do lado direito. Esta semana, numa não menos profunda cratera com que a Câmara de Lisboa agradece os impostos que lhe pagamos, estoiraram os dois pneus do lado esquerdo. Metaforicamente, em seis meses, fiquei apeado, sem fôlego.
É nestas alturas que tenho pena de não ser místico ou simplesmente religioso - alguma razão, ou aviso divino, haveria de me inquietar ou sossegar.
Assim, sem misticismo, limitei-me a desembolsar quase 300 euros de cada vez. Tudo muito terra-a-terra, sem grande dignidade ou elevação.

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Artigos que todos os homens (ou quase) deveriam ler.






















The Secret World of Lingerie Explained

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

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Sonho erótico levemente pimba

Estava na tua cama com ela.

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Gostava de ter escrito isto:

«Quando a oposição é frágil - como é actualmente no nosso país - os media tendem a assumir o papel da oposição. É uma reacção natural, em todo o mundo e em todas as circunstâncias»

«Sabemos que [o caso Freeport] foi destilado gota a gota por alguma comunicação social, muito preocupada com as vendas e as audiências»

«Isto é pura e simplesmente o resultado de uma assunção pelos media de uma responsabilidade de oposição»

«O nosso sistema judicial é muito tolerante para com os media, temos de chegar a um momento em que os media respondam perante o país»

«Deus nos livre! Um primeiro-ministro demitir-se por factos falsos e artificialmente criados. Era o que faltava».

Correia de Campos, 4 Fev 09

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

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Don't Let It Bring You Down

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Gostava de ter escrito isto:

Manual de instruções para campanhas negras.

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A Rolling Stone, sendo um dos rostos do liberalismo americano, é simultaneamente uma das revistas mais conservadoras do mundo.
Politicamente, aquilo a que na Europa chamamos de "esquerda" pode contar sempre com a RS. Nas últimas eleições, fizeram duas capas quase seguidas com Obama...
Mas a abordagem musical - e a RS é essencialmente uma revista de música - é do mais conservador que imaginar se possa. Basta espreitar as listas de melhores discos, cantores, etc, etc que de vez em quando fazem para o constatar. Mas nisso, nessa perenidade dos valores essenciais do pop-rock, é insubstituível.

Isto tudo só para dizer que a capa da última edição é mais um (!) objecto de colecção.


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Viver um dia de cada vez. Aproveitar o momento. Fatal falácia. Somos, essencialmente, passado. Tudo o que acumulamos ou transportamos nos pesa, ou nos torna leves. E somos futuro. Cada gesto, intencional ou não, projecta-nos para um devir, próximo ou longínquo. O momento, o viver um dia de cada vez, é uma impossibilidade. Um consolo.

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O erro só existe quando dele tomamos consciência. Eis um dos problemas com que me tenho confrontado - digo que erraste, mas tu não sabes que erraste, logo não erraste. O diálogo complica-se, então. Daí à impossibilidade é um pequeníssimo passo.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

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A morte do jornalismo (4 e fim)

E estamos condenados a esta miséria?
Sinceramente, acho que sim.
Podemos, no entanto, tentar melhorar algumas coisas. Pequenos passos. Por exemplo, tornar obrigatória a leitura deste livro a todos os que ponham o pé numa redacção. Talvez pouco lhes fique na cabeça, mas não podem dizer que não foram avisados.























Os mais preguiçosos podem ficar pela contracapa, onde se lê:

The elements of journalism are:
* Journalism’s first obligation is to the truth.
* Its first loyalty is to citizens.
* Its essence is a discipline of verification.
* Its practitioners must maintain an independence from those they cover.
* It must serve as an independent monitor of power.
* It must provide a forum for public criticism and compromise.
* It must strive to make the significant interesting and relevant.
* It must keep the news comprehensive and proportional.
* Its practitioners must be allowed to exercise their personal conscience.


Nota: a capa que está ali em cima é da edição americana de 2008, devidamente actualizada. Para os mais preguiçosos e analfabetos, há uma versão portuguesa da edição anterior (procurem-na, não esperem que faça eu tudo...). É melhor que nada!

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Hasta Pública

Entregamos a quem der melhores garantias de boa utilização alguns dossiers encontrados numa garagem da Aroeira. Damos preferência a utilizações em cadeia, por exemplo, a propostas conjuntas entre um jornal e uma televisão. As melhores propostas, além de poderem utilizar os materiais agora à disposição, passam à segunda fase, durante a qual colocaremos à disposição os famosos e exclusivos caixotes do sótão da Aroeira.

1. Caderneta completa dos cromos da primeira série do Espaço 1999, incluindo o famoso e raríssimo cromo 39 (o do Spock com a orelha descaída). Fornecemos em anexo testemunhos de dois amigos de infância dispostos a garantir, mesmo sob ameaça, que o cromo 39 era virtualmente impossível de obter, a não ser recorrendo a métodos pouco ortodoxos. Temos ainda uma carta da Panini a confirmar que, de facto, nem nos seus arquivos existe qualquer exemplar do cromo 39 (Nota: a Panini ainda não existia quando os factos ocorreram, pelo que não se aconselha o recurso a cronologias). Noutro anexo, pedopsiquiatras com provas dadas (vidé Casa Pia) garantem a pés juntos que o "o cromo 39 não é apenas o cromo 39, é uma tendência genética".

2. Fotos de um indivíduo de cabelo ligeiramente grisalho, fatos Armani (provavelmente comprados numa famosa fábrica da Serra de Aire) e pose elegante. Tem sotaque siciliano. Fornecemos em complemento um DVD (sem imagem, mas com bom som), gravado por um vizinho, em que se ouvem claramente as expressões "Colete Encarnado", "pega de caras" e "animal luzidio". Do dossier consta uma ficha de uma força policial inglesa cujos peritos relacionam, sem margem para dúvidas, aquelas expressões com "Alcochete", "ZPE" e "isso vai custar-te um prato de tremoços". Noutro anexo, uma folha de um processo a correr na comarca do Seixal trata o indivíduo como "sósia".

3. Entrevista concedida ao jornal "El Suel", de Bogotá, por um trabalhador de uma firma de sucata de pneus da Margem Sul, actualmente a viver sob identidade falsa na Bolívia, na qual são relatadas movimentações estranhas de carros de alta e baixa cilindrada, em 1993, na A12 (em 1993, ainda não havia A12, pelo que se recomenda a omissão da data, ou da estrada em concreto). Do dossier consta uma troca de mails entre o funcionário da sucata e o seu patrão, em que a certa altura se pode ler "agora, depois do que viste, ou te meto num bidão de cimento ou te mando para Buenos Aires". Fornecemos, a título completamente gratuito, sugestão de uma maquete de uma dupla página de jornal, em que ficam perceptíveis as ligações existentes entre o patrão da sucata, uma secretária do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o Lee Rodrigues (que ainda não tinha entrado nesta história) e várias aves protegidas das Salinas do Samouco. Nota: a dupla página tem obrigatoriamente que ser impressa a cores.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

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Benjamin Biolay et Chiara Mastroiani - Folle de Toi

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A morte do jornalismo (3)

Acresce ao que já se disse o facto de hoje em dia as redacções serem uma espécie de voz do dono.
Trata-se de um facto relativamente recente, pelo menos na forma generalizada em que actualmente se apresenta.
É claro que os media têm patrões e que, por isso, de alguma forma sempre cederam a ser porta-vozes dos interesses de quem paga e manda. Mas isso era, no passado, a excepção. Acontecia uma vez por outra, causava desconforto e, normalmente, não era feito da forma escancarada como acontece hoje.
Os jornalistas, a começar pelos directores, assumem frequentemente as dores e os apetites do patrão.
Por um lado, na luta entre grupos de media, seja através da supervalorização de notícias e personalidades do grupo, seja pela exclusão das dos grupos adversários. Em alguns casos, de forma ligeira, noutros, à bruta. Às vezes, basta a secção de "bocas" para escarnecer o adversário, noutros casos, chega-se à manchete.
Mais recentemente - e precisamente porque se abrira o caminho através da luta inter-grupos - os media alinham com os patrões nos seus negócios e opções políticas ou outras.
Os media passaram a conciliar aquilo que acham ser o jornalismo na sua acepção clássica com uma postura grupal mais ou menos declarada.
E nisto, como no resto, o que custa é abrir a porta. Com ela aberta, é fartar vilanagem.
No caso Freeport isso tornou-se evidente, mesmo para quem ainda tinha algumas dúvidas.

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Dias terríveis. O vento limpa, purifica, leva para longe as poeiras, os rumores, o cheiro da podridão. Mas logo vêm as enxurradas, a chuva copiosa. E fica novamente tudo coberto de camadas de lama.

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A morte do jornalismo (2)

Parte do problema, mas apenas parte, está a montante.
Penso que as pessoas responsáveis e respeitáveis - sejam eles empresários honestos ou simples donas de casa sensatas - não comprariam jornais nem veriam televisão em Portugal, se alguma vez tivessem a oportunidade de conversar durante meia hora com duas ou três pessoas das que fazem as notícias.
As redacções portuguesas estão hoje repletas de gente profundamente impreparada. Jovens mal pagos, com canudo mas sem experiência, e, principalmente, sem qualquer noção do que andam a fazer. Do papel que os media devem desempenhar nas democracias modernas.
E não se pense que isto se aplica apenas aos jovens estagiários. Nada disso. Pela escala acima, incluindo editores e mesmo directores, é uma desgraça. Não é apenas o factor juventude - embora também o seja -, mas acima de tudo o factor cultura. Cultura, no sentido mais lato do conceito, mas também mera cultura jornalística. E cultura cívica, principalmente.

sábado, 31 de janeiro de 2009

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Vá, confesse lá, aquela resma de papelada para a avaliação já está preenchidinha, não está? E não a entrega porquê? Ah... o Mário Nogueira não deixa. Naughty boy...


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A morte do jornalismo

Um dos aspectos mais curiosos da cobertura jornalística do caso Freeport é a demissão total dos jornalistas (era capaz de voltar aos bancos da faculdade só para estudar o fenómeno a fundo...).
Tudo é publicado e republicado, permanentemente, sem qualquer filtro. Os jornais citam as televisões, que citam as rádios, que citam os jornais, que citam as televisões. E o que citam eles? Tudo. Rigorosamente tudo. Porque tudo é publicado. Não há qualquer investigação jornalística, um mero cruzamento de dados, de declarações. Tudo o que chega às redacções, seja por que via for, vai imediatamente para o papel ou para o ar.
Há um claro efeito de amontoamento, como já assinalei aqui.
Mas há algo bem mais curioso e muito, mas muito mais, perigoso.
É como se as redacções dos jornais, tv e rádios tivessem de repente ficado sem directores ou editores. A funcionar em roda livre. Sem filtro, insisto. Como se todos estivessem permanentemente em directo, ou como se todos os media fossem um Forum TSF ou Opinião Pública, em que tudo é permitido. O directo, como vários teóricos já escreveram, é uma espécie de não-jornalismo. Agora imagine-se um directo quase permanente (e o conceito aplica-se também aos jornais).
Uma das funções mais nobres do jornalismo - a par da investigação - é a selecção do que se publica. Há manuais e manuais sobre isso. Os Livros de Estilo dedicam páginas e páginas aos modos de o fazer. Enquanto peça fundamental na engrenagem do sistema democrático, os media têm uma responsabilidade insubstituível no modo como a informação circula. E só deve circular a informação relevante, credibilizada pela aplicação das mais elementares regras do jornalismo.
A publicação de tudo, sem critério, é a negação do jornalismo.
E nunca como agora se assistiu a uma tão assustadora demissão do jornalismo. O pior é que a maioria dos jornalistas está convencida do contrário.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

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Vale a pena ler
este texto
este
e ainda mais este.

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A editora do U2 pagou a viagem a Madrid a um jornalista do Correio da Manhã e a outro do Diário de Notícias para ouvirem em primeira mão o novo disco da banda - No Line On The Horizon. Ambos se esqueceram de pôr aquele asterisco no final do texto a dizer: fui a Madrid mamar umas tapas à conta da Universal...
Mas não é isso que interessa agora. Atente-se nos títulos:
CM: Novo disco dos U2 arrisca inovação.
DN: U2 sem grandes surpresas num album introspectivo.
Se a estratégia é baralhar o leitor/ouvinte e "obrigá-lo" a comprar o disco, para saber se é "inovador" ou "sem supresas", estão de parabéns - conseguitam.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

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Isto não é jornalismo.

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Eles são ingleses.
O disco chama-se Rumours.
A canção, Second Hand News.

Os Fleetwood Mac são normalmente subavaliados pelos melómanos.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

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O Jornal de Letras está hoje nas bancas com uma edição especial do seu n.º 1000.
Tenho boas memórias do JL. Assisti ao seu nascimento e tenho, se a traça não fez o seu trabalho, as primeiras dez edições com as fabulosas primeiras páginas de Abel Manta.
Eu dava os primeiros passos na profissão, na sala ao lado, no velho e extinto O Jornal. Era o meu primeiro contacto com as máquinas de escrever (!) de uma redacção, com as reuniões animadas, os dias de fecho, o cheiro do papel que chegava de manhã da gráfica.
Guardo essa memória do JL, mas também do Se7e e, claro, d'O Jornal. São boas memórias.
Mas foi também quando o JL nasceu que eu percebi que o jornalismo é como o resto dos círculos de poder da capital: o acesso é mais ou menos reservado a familiares, a pessoas que quando nascem já trazem o nome feito, e a amigos. Ah, o amiguismo...
A um jovem da "província", que a troco dos sacríficios dos pais conseguira o "canudo" em Comunicação Social, estava reservado o turno da noite e da madrugada, numa rádio, cinco anos (eu repito: cinco anos...) a recibo verde.
Hoje, tenho o n.º 1000 do JL nas mãos. E o consolo de, passados tantos anos e tantos filhos-de-puta pela minha vida, estar muito mais bem conservado que o JL.

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Nunca saio de casa sem dar uma vista de olhos às notícias das televisões. Hoje, parece que a coisa está assim:

Há um tio de José Sócrates, chamado Dias Loureiro, que queria abrir um Banco Insular no Freeport de Alcochete. Para isso, explicou aos deputados, teve uma reunião informal com os dirigentes do BPP, sendo que, por engano, os repórteres de televisão passaram a tarde de ontem à porta do BPN, onde as autoridade policiais, sob as ordens da procuradora Felícia Cabrita, procuram dois bilhetes de cinema utilizados por um fulano chamado Oliveira e Costa e por um inglês cujo nome me escapa. Dizem os jornais do dia que a conversa entre Oliveira e Costa e o tal inglês, gravada em DVD por uma meia cunhada de Vítor Constâncio, terá ocorrido durante a exibição de "Os Malucos do Riso - O Filme", exibido no Forum de Almada, o qual terá sido construído em plena ZPE da A2, com financiamento da Quercus.

Saí de casa preocupado - isto ainda vai dar merda...

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

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O "caso Freeport", como outros "casos" no passado, gera um curioso efeito comunicacional, a que poderíamos chamas de Efeito Amálgama, especialmente perceptível nas televisões.
Na ânsia de tudo mostrarem, tudo "investigarem", de não deixar nenhuma ponta de fora, de ouvir toda a gente, de encontrar o ângulo que ninguém ainda tinha descoberto, os media acabam por gerar autênticos amontoados, em que já não se distingue o velho do novo, o irrelevante do importante. Em que os media se citam uns aos outros, sem referências explícitas, perdendo ou "ganhando" conteúdo, através de cada vez mais divergentes abordagens.
Esta cacofonia, este entulho informativo, conduz à náusea e os media acabam por gerar o efeito que certamente menos esperavam - os consumidores cansam-se, "é tudo igual", "já não percebo nada disto" e, se porventura alguém aparecesse com uma verdadeira novidade, já ninguém iria reparar.
Os media, especialmente os audiovisuais, são auto-devoradores.