antes de espetar o carro contra um poste de iluminação, ao 27 anos, chris bell teve tempo de lançar um single com duas canções. e eis a sua obra.
nunca tinha ouvido falar de tal sujeito até pasmar com scarlett johansson e pete yorn. scarlett cantora é um desastre. um encantador desastre. isso não vem ao caso. isto sim:
Every night I tell myself, I am the cosmos, I am the wind
só quando ouvi a outra canção de chris bell é que percebi - conheço isto de qualquer lado. os this mortal coil têm, afinal, versões de ambos os temas. melhorzita a de you and your sister. o original é, porém, comovente.
as canções de maximilian hecker são sempre tristes. belas e tristes. convidam ao recolhimento. podem ser redentoras, exorcizantes. acreditem.
este vídeo, não oficial, parece ter sido feito na coreia. aparentemente, as canções de hecker (berlim) serão muito populares nas escolas coreanas de artes visuais. coisas de espantar.
star fm. é assim que se chama a enésima encarnação de uma rádio derivada de uma casa a que me habituei a chamar de comercial e outros de rádio clube. a star fm é uma espécie de rádio nostalgia de conceito refinado - passa basicamente canções dos anos 60 e 70, mas apenas as muito alegres, coisas bem dispostas, daquelas que andaram nos tops e que cantarolamos compulsivamente, fazendo figuras de parvo. tenho dois ou três fetiches nesta especialidade, digamos assim. uma delas é deveras peculiar - a história de um fulano prestes a morrer, que se despede de amigos, namoradas e familiares. um rio de lágrimas, mas que dá vontade de fazer lá lá lá. coisa para embaraçar qualquer intelectual que se apresente como amante da 'boa música' (topem só o aspecto do marmanjo que a canta).
ora a coisa é de tal maneira contagiosa que kurt cobain gravou uma versão catita com os nirvana, com todo o grupo a trocar de instrumentos. cobain suicidou-se uns tempos depois, mas não consta que tal facto tenha qualquer relação com a cantigueta, nem que a tenha cantado antes do grande adeus. isto é de mau gosto, eu sei... mas estão a ver onde nos levam as cantigas foleiras?
high violet, dos national, é um disco para o resto da vida, todo ele. e se de início me prenderam os versos enigmáticos de bloodbuzz ohio
I still owe money to the money to the money I owe I never thought about love when I thought about home I still owe money to the money to the money I owe The floors are falling out from everybody I know
acaba por ser em conversation 16 que a minha atenção se fixa. um dos poemas mais interessantes da pop dos últimos tempos
i think the kids are in trouble i do not know what all the troubles are for give them ice for their fevers you're the only thing i ever want anymore we'll live on coffee and flowers try not to wonder what the weather will be i figured out what we're missing tell you miserable things after you are asleep
now we'll leave the silver city cause all the silver girls gave us black dreams leave the silver city cause all the silver girls everything means everything
it's a hollywood summer you never believe the shitty thoughts i think we had friends out for dinner when i said what i said i didn't mean anything we belong in a movie try to hold it together till our friends are gone we should swim in a fountain i do not want to disappoint anyone
i was afraid I'd eat your brains cause I'm evil
i'm a confident liar have my head in the oven so you know where i'll be i try to be more romantic i wanna believe in everything you believe i was less than amazing i do not know what all the troubles are for i fall asleep in your branches you're the only thing i ever want anymore
canções para o resto da vida (54) os go-betweens, mais que os smiths, são a banda da minha adolescência. melhor, daqueles anos da idade adulta em que ainda conseguimos o melhor de dois mundos. canções descomplexadas, com títulos despropositados - draining the pool for you -, o gosto das guitarras, mesmo quando as guitarras não têm qualquer aspiração a ser mais que guitarras. até os coros... terão sido umas miúdas que por ali passaram?
os young marble giants tinham um nome do caraças. e o disco não lhe ficava atrás, colossal youth. disco único, em sentido literal e também no outro. além da menina de voz imberbe (googlem s'il vous plait), o grupo tinha um rapaz, stuart moxham, que depois constituiu uma banda chamada the gist, muito interessante, mas que também só fez um disco. topam? uns autênticos sucessos. passou-se tudo há 30 anos e eu estava na altura em que ouvia isto em repeat.
a primeira vez que ouvi falar dos strokes tinha-os à minha frente, na zona ribeirinha de lisboa, e não gostei. só passados anos percebi a razão - aquilo que vi e ouvi era demasiado profissional, até porque a banda já estava no auge da fama. gosto deles em disco, como na maioria dos casos, e prefiro imaginá-los quase como banda de garagem, coisa que não são. enfim, só contrariedades. este tema é o primeiro do primeiro disco e conheço poucos começos tão definitivos como este. (nota: gosto muito deste vídeo)
os white stripes anunciaram oficialmente uma separação há muito consumada. cheguei-lhe tardiamente e por via indirecta, numa prova de que a coisa (fractura? conflito? continuidade?) geracional funciona. e muito rapidamente percebi que jack, white da parte da mulher que já não o é há muitos anos, é um dos génios dos nossos dias. como provam os white stripes - por exemplo, esta canção e a sua 'histórica' linha de guitarra (*) - e os muitos projectos em que se tem envolvido.
(*) rectificado, após alerta do pedro. washington rules...
filosofia barata? poesia de trazer por casa? as canções pop são um território ambíguo por natureza. mesmo na sua aparente simplicidade, ingenuidade ou seja lá o que for que as torna objectos de consumo fácil e efémero. tudo isto para vos apresentar uma canção dessas, cantada por um intérprete desses. uma canção sobre o elvis e mais uma data de coisas que estão lá para quem as queira ouvir.
os beatles são o império romano da música pop-rock. no apogeu, dominaram. impuseram modas, criaram uma indústria, moldaram o futuro. após a queda, a influência perdurou. o seu latim ainda hoje é língua viva nas várias correntes da música que inventaram e que inventaram depois deles.
a chegada dos beatles ao itunes deixa roma já muito longe. tão longe como os romanos. a desmaterialização da música, o regresso ao single, a dispersão por mil e um formatos, tudo isso passou ao lado dos beatles, devidamente encaixotados e selados à guarda de uns herdeiros que não souberam estar à altura dos acontecimentos. como muitos dos impérios que sucederam roma.
no itunes, uma pequeníssima geração vai, finalmente, poder comprar as canções dos beatles em formato digital e imaterial, mas especialmente em single, canção a canção, num regresso às origens. paradoxalmente, recriando aquilo que os beatles destruiram - a canção enquanto unidade, substuituida a meio da década de 60 pelo conceito do álbum.
mas nada disso é novo. nada disso surge ou é sequer potenciado pelos beatles. tudo já estava inventado antes de eles chegarem ao itunes.
neste novo mundo, roma parece já não contar, pelo menos nestas coisas tão aparentes. nas outras, nas profundas, ainda é o coração dos beatles que bate.
há uns meses, a rolling stone lançou uma edição especial sobre as melhores canções dos beatles. a day in the life ficou no topo. uma das vantagens da disponibilização da obra do quarteto no itunes é perceber, daqui a uns meses ou anos, qual ou quais as canções mais compradas, logo, as preferidas.
songs from liquid days (1986), o disco para o qual philip glass convidou uma série de nomes da área pop/rock, foi um dos maiores murros no estômago que a música me meu. ainda no gira-discos, ouviu vezes sem fim os seis temas, com música de glass e letras de paul simon (como esta changing opinion), laurie anderson, david byrne e suzanne vega. glass ficou-me para o resto da vida, se bem que não seja fulano para se ouvir todos os dias. num registo mais puro, coloco glass works entre as minhas preferências, mas nada chega à sonoridade forte e colorida deste songs from liquid days.
a versão mais conhecida é a de dusty springfield, a partir de um original de burt bacharach e hal david. prefiro, não sei bem porquê e apesar de gostar em regra das canções de dusty, a versão dos white stripes (jack white é um dos génios das últimas décadas), acompanhada de kate moss no varão filmada por sofia coppola.
encontrei no câmara coporativa uma série que desconhecia. a npr, rádio pública americana (vale a pena consultar aqui o capítulo referente ao financiamento...), tem um programa a que chama tiny desk concert (uma espécie de unplugged em miniatura), pelo qual passou uma das minhas mais recentes descobertas. bill callahan é autor de um dos melhores discos de 2009 (ele já por aí andava sob a capa de um grupo chamado smog, do qual nunca tinha ouvido falar). tudo isto para chamar a atenção para uma canção fabulosa: too many birds.
quase seis minutos. quase apenas a palavra love. war is not the answer, the answer is within you. só isto. como se a música nos pudesse salvar. a eternidade em seis minutos.
dizem-me que tacones lejanos é o único filme de almodovar sem edição portuguesa. esta canção de luz casal integra a banda sonora de tacones. será uma banal canção de (des)amor. na voz de luz, nada é banal, tudo é 'ganas', drama de vida.
a case of you. o título não é o que parece. ou não é só que parece. uma das mais belas canções de joni mitchell (blue, 1971). os dois primeiros versos são de arrepiar:
just before our love got lost you said i am as constant as a northern star
esta versão é da voz mui segura de k.d.lang. prefiro-a à original. o timbre de joni mitchell naquele tempo, confesso, não é muito consensual. toda outra conversa.